Artrose em cães: sinais, diagnóstico e cuidados

Entenda como reconhecer a artrose, quais fatores podem agravar o quadro e como o tratamento multimodal ajuda a preservar o conforto e a mobilidade do cão.

Dr. Felipe Garofallo · Médico-veterinário (CRMV-SP 39.972)06 de agosto de 20268 min de leitura
Cão idoso sendo avaliado por veterinário por suspeita de artrose

A artrose em cães é uma doença articular crônica e progressiva que pode causar dor, rigidez e redução da mobilidade. Embora seja mais frequente em animais idosos, também pode afetar cães jovens, especialmente quando existem alterações ortopédicas, lesões anteriores ou predisposição individual. Reconhecer os sinais e buscar avaliação veterinária cedo ajuda a definir um plano de cuidados adequado para cada paciente.

O que é artrose em cães?

Também chamada de osteoartrite ou doença articular degenerativa, a artrose envolve mudanças graduais nas estruturas que formam a articulação. A cartilagem, responsável por favorecer o movimento com menor atrito, pode sofrer desgaste. Ao mesmo tempo, podem ocorrer inflamação, alterações no osso e redução da qualidade do líquido articular.

Esse processo tende a provocar dor e limitar os movimentos. Como o cão passa a usar menos o membro afetado, pode haver perda de massa muscular, mudança na postura e sobrecarga de outras regiões do corpo. Por isso, a artrose não deve ser entendida apenas como um problema localizado: ela pode influenciar toda a maneira como o animal se movimenta.

A doença não costuma ter uma solução única. O manejo geralmente combina controle da dor, adequação das atividades, cuidado com o peso, reabilitação e acompanhamento periódico. O objetivo é preservar a função da articulação e oferecer mais conforto ao cão.

Quais cães podem desenvolver artrose?

Qualquer cão pode apresentar alterações degenerativas nas articulações, mas alguns fatores aumentam a possibilidade de desenvolvimento ou progressão do quadro:

  • Idade: o desgaste articular e o histórico de lesões acumuladas podem tornar a artrose mais evidente com o envelhecimento.
  • Excesso de peso: aumenta a carga sobre as articulações e pode dificultar a movimentação.
  • Displasia coxofemoral ou de cotovelo: alterações no desenvolvimento articular favorecem instabilidade e desgaste.
  • Luxação de patela: o deslocamento recorrente da patela pode alterar a mecânica do joelho.
  • Ruptura do ligamento cruzado cranial: causa instabilidade no joelho e está frequentemente associada ao desenvolvimento de artrose.
  • Fraturas ou traumas articulares: mesmo depois do tratamento, uma articulação lesionada pode apresentar degeneração ao longo do tempo.
  • Alterações de conformação: o alinhamento dos membros influencia a distribuição das forças durante o movimento.
  • Atividades inadequadas: exercícios intensos, repetitivos ou incompatíveis com o condicionamento do animal podem agravar desconfortos já existentes.

Ter um desses fatores não significa que o cão necessariamente apresentará sintomas intensos. A evolução varia entre os pacientes, e o exame veterinário é necessário para compreender o impacto real das alterações.

Principais sinais de artrose

Os cães nem sempre demonstram dor chorando ou vocalizando. Muitas vezes, os primeiros indícios aparecem como mudanças discretas no comportamento ou na rotina. O tutor pode perceber:

  • dificuldade para se levantar depois de dormir ou descansar;
  • rigidez nos primeiros passos, com melhora parcial após alguns minutos;
  • mancar de forma constante ou intermitente;
  • relutância em subir escadas, pular no sofá ou entrar no carro;
  • redução da disposição para passeios e brincadeiras;
  • passos mais curtos ou movimento corporal diferente;
  • escorregões frequentes em pisos lisos;
  • mudança na maneira de sentar ou deitar;
  • perda de massa muscular em um dos membros;
  • irritabilidade ao ser tocado ou manipulado;
  • isolamento, inquietação ou dificuldade para encontrar uma posição confortável;
  • lambedura repetitiva de uma articulação ou região do corpo.

Em alguns casos, o cão continua correndo ou brincando mesmo com dor, mas apresenta piora depois da atividade. Observar como ele se comporta ao acordar, durante o passeio e nas horas seguintes ao exercício pode fornecer informações importantes para a consulta.

Reduzir o ritmo não é sempre uma consequência normal da idade. Mudanças de mobilidade e comportamento podem estar relacionadas à dor e merecem investigação.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico começa com a conversa sobre o histórico do paciente. O veterinário pode perguntar quando os sinais surgiram, quais atividades causam dificuldade, se já houve trauma ou cirurgia e quais medicamentos ou suplementos o cão utiliza.

Durante o exame ortopédico, são avaliados a marcha, a postura, a amplitude de movimento das articulações, a estabilidade, a massa muscular e os pontos de sensibilidade. O profissional também pode realizar um exame neurológico ou clínico geral, pois algumas doenças da coluna, dos músculos e de outros sistemas podem provocar sinais semelhantes.

As radiografias ajudam a identificar alterações ósseas compatíveis com artrose e possíveis causas do problema. Entretanto, a intensidade das mudanças observadas na imagem nem sempre corresponde exatamente ao nível de dor do animal. Por isso, a interpretação deve ser feita em conjunto com o exame físico e o histórico.

Dependendo do caso, podem ser indicados exames de sangue, tomografia, ressonância magnética, ultrassonografia ou análise do líquido articular. Esses recursos não são necessários para todos os pacientes; a escolha depende da articulação envolvida e das suspeitas clínicas.

Como tratar a artrose em cães?

O tratamento costuma ser multimodal, ou seja, reúne diferentes estratégias. O plano deve considerar a idade, o peso, as doenças associadas, o nível de atividade e a causa da artrose. As necessidades também podem mudar com o tempo, tornando essenciais as reavaliações.

Controle da dor e da inflamação

O veterinário pode prescrever anti-inflamatórios, analgésicos ou outros medicamentos, conforme a avaliação clínica. Alguns pacientes precisam de exames antes e durante o uso, especialmente quando há tratamento prolongado ou alterações renais, hepáticas, gastrointestinais e cardíacas.

Nunca ofereça medicamentos humanos ou combine remédios por conta própria. Fármacos comuns para pessoas podem causar intoxicação em cães, e a associação inadequada de anti-inflamatórios aumenta o risco de efeitos adversos. Se houver vômito, diarreia, fezes muito escuras, perda de apetite ou prostração após o início de uma medicação, entre em contato com o veterinário.

Controle do peso

Manter uma condição corporal adequada reduz a carga mecânica sobre as articulações. Quando existe excesso de peso, o emagrecimento deve ser gradual e orientado, com ajustes na alimentação e nas atividades. Restrições improvisadas podem causar desequilíbrios nutricionais ou perda de massa muscular.

Exercícios adaptados

O repouso absoluto prolongado geralmente não é desejável, pois pode favorecer fraqueza muscular e rigidez. Por outro lado, atividades intensas podem provocar piora da dor. O ideal é encontrar um nível de exercício regular e tolerável.

Passeios curtos e controlados, em superfície segura, podem ser mais adequados do que uma única caminhada longa. Corridas, mudanças bruscas de direção, saltos e brincadeiras de alto impacto podem precisar de limitação, sobretudo durante crises. A orientação deve ser individualizada.

Fisioterapia e reabilitação

A reabilitação veterinária pode incluir exercícios terapêuticos, fortalecimento muscular, treino de equilíbrio, recursos analgésicos e técnicas para melhorar a amplitude de movimento. Em alguns pacientes, atividades aquáticas são consideradas porque permitem exercício com menor impacto, mas elas precisam de indicação e supervisão apropriadas.

O programa deve respeitar a articulação afetada, a condição cardiovascular e o nível de dor. Repetir em casa exercícios inadequados ou além do recomendado pode agravar os sintomas.

Alimentação e suplementos

Dietas específicas e alguns suplementos podem ser considerados como parte do manejo. A indicação depende da alimentação atual, do peso e das demais condições de saúde. Esses produtos não substituem o diagnóstico nem devem ser vistos como solução isolada. Além disso, composição e qualidade variam, por isso é importante conversar com o veterinário antes de iniciar qualquer opção.

Cirurgia em situações selecionadas

Quando existe uma causa ortopédica tratável, como instabilidade importante, ruptura ligamentar ou alteração de alinhamento, uma cirurgia pode ser discutida. O procedimento não é indicado da mesma forma para todos os cães e nem sempre elimina alterações degenerativas já presentes. A decisão considera exames, intensidade dos sinais, idade, condição geral e expectativa funcional.

Como adaptar a casa para um cão com artrose?

Pequenas mudanças no ambiente podem reduzir o risco de quedas e facilitar as atividades diárias:

  • coloque tapetes ou passadeiras antiderrapantes nos trajetos mais utilizados;
  • mantenha unhas e pelos entre os coxins aparados, quando indicado;
  • ofereça uma cama confortável, firme e de fácil acesso;
  • evite que o cão precise subir e descer escadas sem supervisão;
  • use rampas estáveis para acesso ao carro ou a locais elevados;
  • eleve os recipientes de água e comida apenas se houver recomendação para o caso;
  • mantenha água disponível em pontos acessíveis;
  • utilize peitoral ou suporte de mobilidade com orientação profissional;
  • evite pisos molhados e reorganize móveis que dificultem a passagem.

Rampas devem ter inclinação segura e superfície aderente. Se forem muito íngremes ou estreitas, podem aumentar o esforço em vez de ajudar.

O que fazer durante uma crise de dor?

Se o cão apresentar piora após uma atividade, reduza temporariamente os esforços, impeça saltos e mantenha-o em um ambiente seguro. Não massageie ou force a articulação sem saber a origem da dor. Também não aumente a dose de um medicamento previamente prescrito sem autorização.

Procure atendimento com prioridade se o animal não apoiar o membro, apresentar dor intensa, inchaço repentino, febre, fraqueza, dificuldade para ficar em pé ou piora rápida. Esses sinais podem estar relacionados a trauma ou a outras condições que exigem investigação.

Acompanhamento ao longo da vida

Como a artrose é uma condição crônica, o plano de cuidados precisa ser revisto periodicamente. Uma estratégia que funcionava meses atrás pode necessitar de ajustes se houver mudança no peso, na musculatura, na rotina ou no estado geral do cão.

O tutor pode registrar a duração dos passeios, episódios de claudicação, dificuldade para levantar, apetite e possíveis reações aos medicamentos. Vídeos do animal caminhando em casa também podem ajudar, pois alguns cães se movimentam de maneira diferente no ambiente da clínica.

Com avaliação veterinária, manejo consistente e adaptações individualizadas, muitos cães conseguem manter atividades prazerosas e uma rotina mais confortável. Se você percebeu mudanças na mobilidade do seu companheiro, agende uma consulta ortopédica. Quanto mais claro for o diagnóstico, mais seguro será o planejamento dos próximos cuidados.

Sobre o autor

Dr. Felipe Garofallo

Dr. Felipe Garofallo (Médico-veterinário (CRMV-SP 39.972)) — Especializado em ortopedia e neurologia veterinária. Atua exclusivamente no diagnóstico e tratamento de doenças musculoesqueléticas e neurológicas em cães e gatos, com foco em medicina baseada em evidências, cirurgia ortopédica e produção de conteúdo técnico para tutores e médicos-veterinários.

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