Cirurgia TPLO em cães: indicação, técnica e recuperação

Entenda quando a cirurgia TPLO pode ser indicada, como o procedimento é realizado e quais cuidados fazem parte da recuperação do cão.

Dr. Felipe Garofallo · Médico-veterinário (CRMV-SP 39.972)03 de agosto de 20269 min de leitura
Cão em avaliação ortopédica do joelho antes da cirurgia TPLO

A cirurgia TPLO é uma técnica ortopédica utilizada principalmente no tratamento da ruptura do ligamento cruzado cranial do joelho de cães. Seu objetivo é modificar a biomecânica da articulação para proporcionar estabilidade durante o apoio da pata. A indicação, entretanto, depende de uma avaliação veterinária individual, que considera o diagnóstico, o porte, a idade, o nível de atividade e as condições gerais de saúde do paciente.

O que é a cirurgia TPLO?

TPLO é a sigla em inglês para Tibial Plateau Leveling Osteotomy, expressão que pode ser traduzida como osteotomia de nivelamento do platô tibial. Trata-se de uma cirurgia realizada no joelho, também chamado de articulação femorotibiopatelar.

Para compreender a técnica, é importante conhecer a função do ligamento cruzado cranial. Esse ligamento ajuda a manter o joelho estável, limitando movimentos anormais entre o fêmur e a tíbia. Quando ocorre uma ruptura parcial ou completa, a tíbia pode se deslocar de maneira inadequada durante o apoio, provocando instabilidade, dor, inflamação e dificuldade para caminhar.

Na TPLO, o cirurgião não substitui diretamente o ligamento lesionado. A técnica modifica o ângulo do platô tibial, região superior da tíbia que participa da articulação do joelho. Essa mudança reduz a força que favorece o deslocamento anormal da tíbia durante o apoio. Para isso, é realizado um corte ósseo planejado, seguido da rotação do segmento e da fixação com placa e parafusos ortopédicos.

Quando a cirurgia TPLO pode ser indicada?

A TPLO pode ser recomendada para cães com ruptura do ligamento cruzado cranial, especialmente quando há instabilidade relevante, dor persistente ou prejuízo funcional. É uma técnica frequentemente considerada para cães ativos e pacientes de médio ou grande porte, mas também pode ser utilizada em cães menores, conforme as características do caso.

A decisão não deve ser baseada apenas no peso ou na idade. O ortopedista veterinário avalia diferentes fatores, como:

  • Ruptura parcial ou completa do ligamento cruzado cranial.

  • Grau de instabilidade do joelho.

  • Presença de dor, claudicação e perda de massa muscular.

  • Formato e inclinação do platô tibial.

  • Porte, peso e nível de atividade do cão.

  • Suspeita de lesão no menisco.

  • Presença de artrose ou de outras alterações articulares.

  • Doenças associadas e condições para anestesia e recuperação.

  • Possibilidade de a família seguir as restrições pós-operatórias.

Nem todo cão que manca apresenta ruptura do ligamento cruzado, e nem todo paciente com essa lesão terá necessariamente a mesma recomendação cirúrgica. Luxação de patela, displasia, alterações neurológicas, lesões musculares e outras doenças podem causar sinais semelhantes. Por isso, o diagnóstico precisa ser realizado por um médico-veterinário.

Quais sinais podem indicar uma lesão no ligamento cruzado?

A ruptura pode acontecer de maneira súbita, mas em muitos cães o ligamento sofre um processo degenerativo progressivo. O tutor pode perceber períodos de melhora e piora antes de a claudicação se tornar mais evidente.

Entre os sinais que merecem atenção estão:

  • Mancar de uma das patas traseiras.

  • Evitar apoiar completamente o membro.

  • Dificuldade para levantar, correr, subir escadas ou entrar no carro.

  • Redução da disposição para passeios e brincadeiras.

  • Sentar com a pata afetada posicionada para o lado.

  • Inchaço ou sensibilidade na região do joelho.

  • Perda de musculatura na coxa.

  • Estalos articulares, que podem estar relacionados a alterações no menisco.

Esses sinais não confirmam o diagnóstico isoladamente. Se o cão apresentar dor ou dificuldade de apoio, é recomendável evitar exercícios intensos e procurar avaliação veterinária. Medicamentos humanos não devem ser oferecidos sem orientação, pois alguns podem causar intoxicação ou complicações graves.

Como é feito o diagnóstico?

A investigação começa com o histórico clínico e o exame ortopédico. O veterinário observa a marcha, avalia a musculatura, procura pontos dolorosos e realiza testes específicos para identificar instabilidade no joelho. Em alguns cães, a tensão muscular ou a dor pode dificultar esses testes, sendo necessária sedação para uma avaliação mais confiável.

As radiografias ajudam a identificar sinais de inflamação, artrose, alterações ósseas e características anatômicas importantes para o planejamento. Elas também permitem medir o ângulo do platô tibial e escolher o tamanho adequado dos implantes. Embora o ligamento não seja visualizado diretamente em uma radiografia comum, o exame fornece informações fundamentais sobre a articulação.

Em situações específicas, o veterinário pode indicar outros exames de imagem ou métodos de avaliação articular. Exames de sangue e avaliação cardiológica também podem ser solicitados antes da anestesia, conforme a idade, o histórico e a condição clínica do paciente.

Como a cirurgia é realizada?

A TPLO exige planejamento radiográfico e materiais ortopédicos específicos. De forma simplificada, o procedimento costuma envolver as seguintes etapas:

  1. Anestesia e controle da dor: o cão recebe anestesia geral e um protocolo analgésico definido de acordo com suas necessidades.

  2. Avaliação da articulação: o cirurgião verifica as estruturas do joelho e investiga possíveis lesões de menisco.

  3. Osteotomia da tíbia: é realizado um corte curvo e planejado na parte superior do osso.

  4. Rotação do platô tibial: o segmento ósseo é reposicionado para atingir o ângulo calculado no planejamento.

  5. Fixação: uma placa e parafusos mantêm o osso na nova posição enquanto ocorre a consolidação.

  6. Controle por imagem: radiografias pós-operatórias verificam o posicionamento dos implantes e o alinhamento obtido.

Se houver uma lesão meniscal, ela poderá ser tratada durante o procedimento. A conduta depende do tipo, da localização e da extensão da alteração encontrada.

O que esperar da recuperação?

A recuperação não depende apenas do dia da cirurgia. O resultado funcional também está relacionado ao controle da dor, à proteção do osso durante a consolidação, ao acompanhamento veterinário, ao manejo do peso e à reabilitação indicada para cada paciente.

Nas primeiras semanas, o cão geralmente precisa permanecer em ambiente controlado, com piso antiderrapante e sem acesso livre a escadas, sofás ou camas. Os passeios devem ser curtos, com guia, apenas conforme a orientação da equipe. Correr, pular e brincar de forma intensa pode sobrecarregar a região operada antes que o osso esteja consolidado.

Primeiros dias

É possível observar inchaço discreto, sensibilidade e apoio limitado da pata no período inicial. A intensidade varia entre os pacientes. O tutor deve administrar os medicamentos exatamente nos horários prescritos e impedir que o cão lamba ou morda a incisão, utilizando o colar elizabetano ou outra proteção recomendada.

A ferida cirúrgica deve ser conferida diariamente. Banhos e contato com água precisam ser evitados até a liberação veterinária. Não se deve aplicar pomadas, álcool, água oxigenada ou curativos caseiros sem orientação.

Semanas seguintes

Com a evolução, a equipe poderá aumentar gradualmente a duração dos passeios e incluir exercícios terapêuticos. Essa progressão não deve ser feita apenas porque o cão parece mais disposto. Muitos pacientes tentam correr antes de o osso estar preparado para cargas maiores.

Radiografias de controle são importantes para acompanhar a consolidação da osteotomia. A liberação para atividades mais intensas deve considerar esses exames e a avaliação clínica, não somente a ausência de claudicação.

Retorno às atividades

O tempo de recuperação varia conforme idade, peso, condição muscular, extensão das alterações articulares, resposta individual e cumprimento dos cuidados. O retorno a corridas, brincadeiras e esportes deve ser progressivo e autorizado pelo veterinário responsável.

Qual é o papel da fisioterapia veterinária?

A reabilitação pode fazer parte do tratamento antes e depois da TPLO. Entre seus objetivos estão controlar desconforto e edema, preservar a mobilidade, recuperar massa muscular, melhorar o padrão de apoio e favorecer um retorno seguro às atividades.

O plano pode incluir exercícios terapêuticos, treino de marcha e outros recursos escolhidos pelo profissional. Nem todo exercício é adequado para todas as fases. Movimentos improvisados em casa podem aumentar a carga sobre o joelho, por isso devem ser realizados apenas quando ensinados e liberados pela equipe veterinária.

O controle do peso também é essencial. O excesso de peso aumenta a demanda sobre as articulações e pode dificultar a recuperação. Ajustes de alimentação devem ser feitos com orientação profissional para preservar a massa muscular e atender às necessidades do cão.

Quais complicações podem ocorrer?

Como qualquer cirurgia ortopédica, a TPLO envolve riscos anestésicos e cirúrgicos. Podem ocorrer infecção, acúmulo de líquido, atraso na consolidação óssea, problemas na incisão, lesão meniscal, desconforto persistente ou alterações relacionadas aos implantes. Atividade excessiva durante a recuperação também pode favorecer complicações mecânicas.

A artrose já existente não desaparece com a cirurgia e pode continuar evoluindo. Ainda assim, a estabilização do joelho busca reduzir a instabilidade e melhorar a função. O acompanhamento de longo prazo pode incluir controle de peso, atividade física adequada, reabilitação e estratégias para dor crônica.

Entre em contato com a equipe veterinária se houver:

  • Dor intensa ou piora repentina do apoio.

  • Sangramento persistente ou abertura dos pontos.

  • Secreção, mau cheiro, calor ou vermelhidão crescente na incisão.

  • Inchaço importante ou que aumenta rapidamente.

  • Vômitos repetidos, prostração acentuada ou falta de apetite persistente.

  • Queda, corrida, salto ou outro acidente durante a recuperação.

Perguntas frequentes sobre a TPLO

A placa precisa ser retirada?

Em muitos pacientes, a placa pode permanecer no local após a consolidação. A retirada pode ser considerada quando existem problemas associados ao implante, como infecção, irritação ou outra indicação definida pelo cirurgião. Ela não deve ser removida de forma rotineira sem avaliação.

O outro joelho também pode apresentar lesão?

Alguns cães podem desenvolver alterações no ligamento cruzado do membro oposto, especialmente quando existe um componente degenerativo. Não é possível afirmar individualmente se isso acontecerá. Manter peso adequado, reconhecer sinais precoces e realizar acompanhamento ortopédico ajuda no cuidado global.

Um cão idoso pode fazer TPLO?

A idade isolada não determina se o paciente pode ou não ser operado. A decisão depende do estado geral de saúde, dos exames pré-operatórios, da intensidade dos sintomas e dos possíveis benefícios e riscos. Cães idosos precisam de avaliação clínica e anestésica individualizada.

A cirurgia elimina a artrose?

Não. A TPLO não elimina alterações degenerativas já presentes. O procedimento busca controlar a instabilidade causada pela deficiência do ligamento e favorecer o uso funcional do membro. O manejo da artrose pode continuar necessário ao longo da vida.

A avaliação ortopédica é indispensável

A TPLO é uma técnica que exige diagnóstico preciso, planejamento radiográfico, execução cirúrgica e acompanhamento pós-operatório. A escolha deve ser discutida com um ortopedista veterinário, considerando as particularidades do cão e a rotina da família.

Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta veterinária. Se o seu cão manca, sente dor ou apresenta dificuldade para apoiar uma pata, procure avaliação o quanto antes.

Na consulta, leve informações sobre quando os sinais começaram, mudanças na disposição, medicamentos utilizados e episódios de trauma. Vídeos do cão caminhando em casa também podem ajudar, pois alguns animais alteram o comportamento no ambiente clínico.

Sobre o autor

Dr. Felipe Garofallo

Dr. Felipe Garofallo (Médico-veterinário (CRMV-SP 39.972)) — Especializado em ortopedia e neurologia veterinária. Atua exclusivamente no diagnóstico e tratamento de doenças musculoesqueléticas e neurológicas em cães e gatos, com foco em medicina baseada em evidências, cirurgia ortopédica e produção de conteúdo técnico para tutores e médicos-veterinários.

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