Cirurgia TPLO em cães: indicação, técnica e recuperação
Entenda quando a cirurgia TPLO pode ser indicada, como o procedimento é realizado e quais cuidados fazem parte da recuperação do cão.

A cirurgia TPLO é uma técnica ortopédica utilizada principalmente no tratamento da ruptura do ligamento cruzado cranial do joelho de cães. Seu objetivo é modificar a biomecânica da articulação para proporcionar estabilidade durante o apoio da pata. A indicação, entretanto, depende de uma avaliação veterinária individual, que considera o diagnóstico, o porte, a idade, o nível de atividade e as condições gerais de saúde do paciente.
O que é a cirurgia TPLO?
TPLO é a sigla em inglês para Tibial Plateau Leveling Osteotomy, expressão que pode ser traduzida como osteotomia de nivelamento do platô tibial. Trata-se de uma cirurgia realizada no joelho, também chamado de articulação femorotibiopatelar.
Para compreender a técnica, é importante conhecer a função do ligamento cruzado cranial. Esse ligamento ajuda a manter o joelho estável, limitando movimentos anormais entre o fêmur e a tíbia. Quando ocorre uma ruptura parcial ou completa, a tíbia pode se deslocar de maneira inadequada durante o apoio, provocando instabilidade, dor, inflamação e dificuldade para caminhar.
Na TPLO, o cirurgião não substitui diretamente o ligamento lesionado. A técnica modifica o ângulo do platô tibial, região superior da tíbia que participa da articulação do joelho. Essa mudança reduz a força que favorece o deslocamento anormal da tíbia durante o apoio. Para isso, é realizado um corte ósseo planejado, seguido da rotação do segmento e da fixação com placa e parafusos ortopédicos.
Quando a cirurgia TPLO pode ser indicada?
A TPLO pode ser recomendada para cães com ruptura do ligamento cruzado cranial, especialmente quando há instabilidade relevante, dor persistente ou prejuízo funcional. É uma técnica frequentemente considerada para cães ativos e pacientes de médio ou grande porte, mas também pode ser utilizada em cães menores, conforme as características do caso.
A decisão não deve ser baseada apenas no peso ou na idade. O ortopedista veterinário avalia diferentes fatores, como:
Ruptura parcial ou completa do ligamento cruzado cranial.
Grau de instabilidade do joelho.
Presença de dor, claudicação e perda de massa muscular.
Formato e inclinação do platô tibial.
Porte, peso e nível de atividade do cão.
Suspeita de lesão no menisco.
Presença de artrose ou de outras alterações articulares.
Doenças associadas e condições para anestesia e recuperação.
Possibilidade de a família seguir as restrições pós-operatórias.
Nem todo cão que manca apresenta ruptura do ligamento cruzado, e nem todo paciente com essa lesão terá necessariamente a mesma recomendação cirúrgica. Luxação de patela, displasia, alterações neurológicas, lesões musculares e outras doenças podem causar sinais semelhantes. Por isso, o diagnóstico precisa ser realizado por um médico-veterinário.
Quais sinais podem indicar uma lesão no ligamento cruzado?
A ruptura pode acontecer de maneira súbita, mas em muitos cães o ligamento sofre um processo degenerativo progressivo. O tutor pode perceber períodos de melhora e piora antes de a claudicação se tornar mais evidente.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
Mancar de uma das patas traseiras.
Evitar apoiar completamente o membro.
Dificuldade para levantar, correr, subir escadas ou entrar no carro.
Redução da disposição para passeios e brincadeiras.
Sentar com a pata afetada posicionada para o lado.
Inchaço ou sensibilidade na região do joelho.
Perda de musculatura na coxa.
Estalos articulares, que podem estar relacionados a alterações no menisco.
Esses sinais não confirmam o diagnóstico isoladamente. Se o cão apresentar dor ou dificuldade de apoio, é recomendável evitar exercícios intensos e procurar avaliação veterinária. Medicamentos humanos não devem ser oferecidos sem orientação, pois alguns podem causar intoxicação ou complicações graves.
Como é feito o diagnóstico?
A investigação começa com o histórico clínico e o exame ortopédico. O veterinário observa a marcha, avalia a musculatura, procura pontos dolorosos e realiza testes específicos para identificar instabilidade no joelho. Em alguns cães, a tensão muscular ou a dor pode dificultar esses testes, sendo necessária sedação para uma avaliação mais confiável.
As radiografias ajudam a identificar sinais de inflamação, artrose, alterações ósseas e características anatômicas importantes para o planejamento. Elas também permitem medir o ângulo do platô tibial e escolher o tamanho adequado dos implantes. Embora o ligamento não seja visualizado diretamente em uma radiografia comum, o exame fornece informações fundamentais sobre a articulação.
Em situações específicas, o veterinário pode indicar outros exames de imagem ou métodos de avaliação articular. Exames de sangue e avaliação cardiológica também podem ser solicitados antes da anestesia, conforme a idade, o histórico e a condição clínica do paciente.
Como a cirurgia é realizada?
A TPLO exige planejamento radiográfico e materiais ortopédicos específicos. De forma simplificada, o procedimento costuma envolver as seguintes etapas:
Anestesia e controle da dor: o cão recebe anestesia geral e um protocolo analgésico definido de acordo com suas necessidades.
Avaliação da articulação: o cirurgião verifica as estruturas do joelho e investiga possíveis lesões de menisco.
Osteotomia da tíbia: é realizado um corte curvo e planejado na parte superior do osso.
Rotação do platô tibial: o segmento ósseo é reposicionado para atingir o ângulo calculado no planejamento.
Fixação: uma placa e parafusos mantêm o osso na nova posição enquanto ocorre a consolidação.
Controle por imagem: radiografias pós-operatórias verificam o posicionamento dos implantes e o alinhamento obtido.
Se houver uma lesão meniscal, ela poderá ser tratada durante o procedimento. A conduta depende do tipo, da localização e da extensão da alteração encontrada.
O que esperar da recuperação?
A recuperação não depende apenas do dia da cirurgia. O resultado funcional também está relacionado ao controle da dor, à proteção do osso durante a consolidação, ao acompanhamento veterinário, ao manejo do peso e à reabilitação indicada para cada paciente.
Nas primeiras semanas, o cão geralmente precisa permanecer em ambiente controlado, com piso antiderrapante e sem acesso livre a escadas, sofás ou camas. Os passeios devem ser curtos, com guia, apenas conforme a orientação da equipe. Correr, pular e brincar de forma intensa pode sobrecarregar a região operada antes que o osso esteja consolidado.
Primeiros dias
É possível observar inchaço discreto, sensibilidade e apoio limitado da pata no período inicial. A intensidade varia entre os pacientes. O tutor deve administrar os medicamentos exatamente nos horários prescritos e impedir que o cão lamba ou morda a incisão, utilizando o colar elizabetano ou outra proteção recomendada.
A ferida cirúrgica deve ser conferida diariamente. Banhos e contato com água precisam ser evitados até a liberação veterinária. Não se deve aplicar pomadas, álcool, água oxigenada ou curativos caseiros sem orientação.
Semanas seguintes
Com a evolução, a equipe poderá aumentar gradualmente a duração dos passeios e incluir exercícios terapêuticos. Essa progressão não deve ser feita apenas porque o cão parece mais disposto. Muitos pacientes tentam correr antes de o osso estar preparado para cargas maiores.
Radiografias de controle são importantes para acompanhar a consolidação da osteotomia. A liberação para atividades mais intensas deve considerar esses exames e a avaliação clínica, não somente a ausência de claudicação.
Retorno às atividades
O tempo de recuperação varia conforme idade, peso, condição muscular, extensão das alterações articulares, resposta individual e cumprimento dos cuidados. O retorno a corridas, brincadeiras e esportes deve ser progressivo e autorizado pelo veterinário responsável.
Qual é o papel da fisioterapia veterinária?
A reabilitação pode fazer parte do tratamento antes e depois da TPLO. Entre seus objetivos estão controlar desconforto e edema, preservar a mobilidade, recuperar massa muscular, melhorar o padrão de apoio e favorecer um retorno seguro às atividades.
O plano pode incluir exercícios terapêuticos, treino de marcha e outros recursos escolhidos pelo profissional. Nem todo exercício é adequado para todas as fases. Movimentos improvisados em casa podem aumentar a carga sobre o joelho, por isso devem ser realizados apenas quando ensinados e liberados pela equipe veterinária.
O controle do peso também é essencial. O excesso de peso aumenta a demanda sobre as articulações e pode dificultar a recuperação. Ajustes de alimentação devem ser feitos com orientação profissional para preservar a massa muscular e atender às necessidades do cão.
Quais complicações podem ocorrer?
Como qualquer cirurgia ortopédica, a TPLO envolve riscos anestésicos e cirúrgicos. Podem ocorrer infecção, acúmulo de líquido, atraso na consolidação óssea, problemas na incisão, lesão meniscal, desconforto persistente ou alterações relacionadas aos implantes. Atividade excessiva durante a recuperação também pode favorecer complicações mecânicas.
A artrose já existente não desaparece com a cirurgia e pode continuar evoluindo. Ainda assim, a estabilização do joelho busca reduzir a instabilidade e melhorar a função. O acompanhamento de longo prazo pode incluir controle de peso, atividade física adequada, reabilitação e estratégias para dor crônica.
Entre em contato com a equipe veterinária se houver:
Dor intensa ou piora repentina do apoio.
Sangramento persistente ou abertura dos pontos.
Secreção, mau cheiro, calor ou vermelhidão crescente na incisão.
Inchaço importante ou que aumenta rapidamente.
Vômitos repetidos, prostração acentuada ou falta de apetite persistente.
Queda, corrida, salto ou outro acidente durante a recuperação.
Perguntas frequentes sobre a TPLO
A placa precisa ser retirada?
Em muitos pacientes, a placa pode permanecer no local após a consolidação. A retirada pode ser considerada quando existem problemas associados ao implante, como infecção, irritação ou outra indicação definida pelo cirurgião. Ela não deve ser removida de forma rotineira sem avaliação.
O outro joelho também pode apresentar lesão?
Alguns cães podem desenvolver alterações no ligamento cruzado do membro oposto, especialmente quando existe um componente degenerativo. Não é possível afirmar individualmente se isso acontecerá. Manter peso adequado, reconhecer sinais precoces e realizar acompanhamento ortopédico ajuda no cuidado global.
Um cão idoso pode fazer TPLO?
A idade isolada não determina se o paciente pode ou não ser operado. A decisão depende do estado geral de saúde, dos exames pré-operatórios, da intensidade dos sintomas e dos possíveis benefícios e riscos. Cães idosos precisam de avaliação clínica e anestésica individualizada.
A cirurgia elimina a artrose?
Não. A TPLO não elimina alterações degenerativas já presentes. O procedimento busca controlar a instabilidade causada pela deficiência do ligamento e favorecer o uso funcional do membro. O manejo da artrose pode continuar necessário ao longo da vida.
A avaliação ortopédica é indispensável
A TPLO é uma técnica que exige diagnóstico preciso, planejamento radiográfico, execução cirúrgica e acompanhamento pós-operatório. A escolha deve ser discutida com um ortopedista veterinário, considerando as particularidades do cão e a rotina da família.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta veterinária. Se o seu cão manca, sente dor ou apresenta dificuldade para apoiar uma pata, procure avaliação o quanto antes.
Na consulta, leve informações sobre quando os sinais começaram, mudanças na disposição, medicamentos utilizados e episódios de trauma. Vídeos do cão caminhando em casa também podem ajudar, pois alguns animais alteram o comportamento no ambiente clínico.
Sobre o autor

Dr. Felipe Garofallo (Médico-veterinário (CRMV-SP 39.972)) — Especializado em ortopedia e neurologia veterinária. Atua exclusivamente no diagnóstico e tratamento de doenças musculoesqueléticas e neurológicas em cães e gatos, com foco em medicina baseada em evidências, cirurgia ortopédica e produção de conteúdo técnico para tutores e médicos-veterinários.
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