Displasia de cotovelo em cães: diagnóstico e tratamento

A displasia de cotovelo pode causar claudicação desde a juventude. Saiba reconhecer sinais, entender os exames e acompanhar o tratamento.

Dr. Felipe Garofallo · Médico-veterinário (CRMV-SP 39.972)04 de agosto de 20267 min de leitura
Veterinário avaliando o cotovelo e a pata dianteira de um cão jovem de grande porte

A displasia de cotovelo é uma das principais causas de claudicação dos membros torácicos em cães jovens de médio e grande porte. Embora muitos tutores associem a doença apenas ao envelhecimento ou ao desgaste das articulações, trata-se, na maioria das vezes, de uma alteração do desenvolvimento que pode comprometer seriamente a qualidade de vida do animal desde os primeiros meses de idade. Quando não reconhecida e tratada adequadamente, a doença favorece o aparecimento precoce de osteoartrite, dor crônica e limitação progressiva dos movimentos.

O termo "displasia de cotovelo" não representa uma única doença, mas um conjunto de alterações ortopédicas que afetam o desenvolvimento normal da articulação. Entre elas estão a fragmentação do processo coronóide medial, a não união do processo ancôneo, a osteocondrite dissecante do côndilo medial do úmero e a incongruência articular. Essas alterações podem ocorrer isoladamente ou em associação, alterando a distribuição das forças dentro da articulação e acelerando o desgaste da cartilagem.

O que causa a displasia de cotovelo?

A origem da doença é considerada multifatorial. Existe forte influência genética, motivo pelo qual algumas raças apresentam incidência muito maior que outras. Labrador Retriever, Golden Retriever, Pastor Alemão, Rottweiler, Bernese Mountain Dog, Terra Nova, Mastiff e outras raças de médio e grande porte estão entre as mais predispostas.

Além da herança genética, fatores ambientais também influenciam o desenvolvimento da doença.

Crescimento acelerado

Filhotes de crescimento muito rápido podem apresentar alterações na formação dos ossos que compõem o cotovelo, favorecendo o aparecimento das lesões características da doença.

Nutrição inadequada

Dietas excessivamente calóricas ou desequilibradas podem acelerar o crescimento ósseo e aumentar o risco de alterações articulares em animais geneticamente predispostos.

Excesso de peso

O aumento do peso corporal eleva a carga suportada pelos cotovelos durante toda a fase de crescimento, favorecendo a progressão das lesões e acelerando o desenvolvimento da osteoartrite.

Exercícios inadequados

Atividades de alto impacto, saltos repetitivos e exercícios intensos durante o crescimento podem agravar alterações já existentes, embora não sejam considerados a causa primária da doença.

Quais são os principais sinais clínicos?

Os primeiros sintomas costumam aparecer entre quatro e doze meses de idade, mas alguns cães somente recebem o diagnóstico quando adultos, após o desenvolvimento de osteoartrite importante.

Claudicação dos membros anteriores

O sinal mais frequente é a claudicação de uma ou ambas as patas dianteiras. Em alguns cães ela aparece apenas após exercícios; em outros, torna-se constante ao longo do tempo.

Rigidez após repouso

Muitos tutores observam que o animal demora alguns minutos para caminhar normalmente depois de levantar, principalmente pela manhã.

Diminuição da disposição

Brincadeiras, corridas e caminhadas longas passam a ser evitadas. O cão pode permanecer mais tempo deitado, demonstrando menor interesse por atividades que antes realizava normalmente.

Alterações na postura

Alguns pacientes mantêm os cotovelos discretamente afastados do corpo, apresentam marcha encurtada ou transferem parte do peso para os membros posteriores na tentativa de aliviar o desconforto.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico depende da associação entre histórico clínico, exame ortopédico e exames de imagem. Nenhum exame isoladamente é suficiente para avaliar todos os casos.

Exame ortopédico

Durante a consulta são avaliadas postura, marcha, amplitude de movimento, presença de dor, crepitação, espessamento articular e estabilidade da articulação. A resposta aos testes realizados durante o exame ajuda a direcionar a investigação.

Radiografias

As radiografias são o exame inicial mais utilizado. Projeções específicas permitem identificar alterações compatíveis com osteoartrite, incongruência articular, esclerose óssea e algumas das lesões associadas à displasia de cotovelo.

Tomografia computadorizada

A tomografia fornece imagens muito mais detalhadas das estruturas ósseas, sendo especialmente útil para identificar fragmentação do processo coronóide medial e pequenas alterações que podem não aparecer nas radiografias convencionais.

Artroscopia

Em alguns pacientes, a artroscopia permite visualizar diretamente a cartilagem e as demais estruturas articulares. Além de confirmar o diagnóstico, o procedimento pode ser utilizado para remover fragmentos e tratar determinadas lesões de forma minimamente invasiva.

Quais são as opções de tratamento?

O tratamento varia conforme a idade do paciente, o tipo de lesão presente, o grau de osteoartrite, a intensidade da dor e o comprometimento funcional.

Tratamento conservador

Nem todos os cães precisam ser submetidos à cirurgia. Em muitos casos, principalmente quando as alterações são leves ou quando a doença já evoluiu para osteoartrite estabelecida, é possível controlar os sinais clínicos com redução do peso corporal, exercícios de baixo impacto, fisioterapia, hidroterapia e medicamentos prescritos pelo médico-veterinário.

O controle do peso corporal costuma representar uma das medidas mais importantes, pois pequenas reduções de peso já diminuem significativamente a carga exercida sobre as articulações.

Tratamento cirúrgico

Quando indicado, o objetivo da cirurgia é remover fragmentos articulares, corrigir alterações anatômicas ou diminuir a progressão da doença. A técnica escolhida depende da lesão identificada e da condição clínica do paciente.

A artroscopia é atualmente uma das técnicas mais utilizadas, permitindo tratamento com menor agressão aos tecidos quando comparada às cirurgias convencionais. Em situações específicas, podem ser necessárias osteotomias corretivas ou outros procedimentos reconstrutivos.

Reabilitação

Independentemente da realização ou não de cirurgia, a fisioterapia desempenha papel importante na recuperação funcional. Exercícios terapêuticos, fortalecimento muscular, hidroterapia e controle da amplitude de movimento ajudam a preservar a mobilidade e reduzir a dor.

Como deve ser o manejo em casa?

O ambiente também influencia diretamente a recuperação e o controle da doença.

Controle da atividade física

O exercício não deve ser completamente interrompido, mas precisa ser cuidadosamente dosado. Caminhadas controladas costumam ser mais seguras do que corridas, brincadeiras intensas ou saltos.

Pisos adequados

Superfícies escorregadias aumentam o risco de quedas e sobrecarga das articulações. Tapetes antiderrapantes e pisos com maior aderência costumam proporcionar maior segurança durante a locomoção.

Controle do peso

Manter o escore corporal adequado reduz a sobrecarga sobre os cotovelos e ajuda a retardar a progressão da osteoartrite ao longo da vida.

Quando procurar atendimento imediatamente?

Embora a evolução da displasia de cotovelo geralmente seja gradual, algumas situações exigem avaliação veterinária o mais rápido possível.

Dor intensa, incapacidade de apoiar o membro, aumento importante de volume na articulação, febre, piora rápida da claudicação, trauma associado ou perda súbita da função do membro devem motivar atendimento imediato. Após procedimentos cirúrgicos, abertura dos pontos, secreção na incisão, odor desagradável, apatia intensa ou perda persistente do apetite também justificam reavaliação.

Qual é o prognóstico?

O prognóstico depende principalmente do tipo de lesão presente, da idade em que o diagnóstico é realizado, do grau de osteoartrite já instalado e da resposta ao tratamento. Muitos cães conseguem recuperar excelente qualidade de vida quando a doença é identificada precocemente e acompanhada de forma adequada. Mesmo nos casos em que já existe degeneração articular importante, o controle da dor, a reabilitação e o manejo correto frequentemente permitem que o animal mantenha boa mobilidade por muitos anos.

Como prevenir a displasia de cotovelo?

Embora não seja possível eliminar completamente o risco em cães geneticamente predispostos, algumas medidas ajudam a reduzir a progressão da doença. Manter alimentação balanceada para filhotes de raças grandes, evitar ganho excessivo de peso, respeitar a fase de crescimento antes de iniciar atividades de alto impacto e adquirir animais provenientes de programas de seleção genética responsáveis são atitudes que contribuem para a saúde articular.

Conclusão

A displasia de cotovelo é uma doença ortopédica complexa que pode comprometer significativamente o bem-estar dos cães quando não diagnosticada precocemente. A identificação dos primeiros sinais, associada à realização de exame ortopédico e exames de imagem adequados, permite estabelecer o tratamento mais indicado para cada paciente. Como diferentes lesões podem produzir sintomas semelhantes, somente uma avaliação individual é capaz de definir o diagnóstico e orientar a melhor estratégia terapêutica, sempre com o objetivo de preservar a função da articulação, controlar a dor e proporcionar melhor qualidade de vida ao animal.

Referências

Fitzpatrick N, Yeadon R. Working algorithm for treatment decision making for developmental disease of the medial compartment of the elbow in dogs. Veterinary Surgery. 2009.

Cook CR, Cook JL. Diagnostic imaging of canine elbow dysplasia: a review. Veterinary Surgery. 2009.

Sobre o autor

Dr. Felipe Garofallo

Dr. Felipe Garofallo (Médico-veterinário (CRMV-SP 39.972)) — Especializado em ortopedia e neurologia veterinária. Atua exclusivamente no diagnóstico e tratamento de doenças musculoesqueléticas e neurológicas em cães e gatos, com foco em medicina baseada em evidências, cirurgia ortopédica e produção de conteúdo técnico para tutores e médicos-veterinários.

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