Luxação de quadril em cães: por que é uma urgência
A luxação do quadril costuma ocorrer após trauma e precisa de avaliação rápida. Conheça sinais, exames e possibilidades de tratamento.

Luxação de quadril em cães: por que é uma urgência
A luxação de quadril é uma das lesões ortopédicas traumáticas mais frequentes em cães e deve ser considerada uma urgência veterinária. Ela ocorre quando a cabeça do fêmur perde o contato normal com o acetábulo, estrutura da pelve que forma a articulação coxofemoral. Como resultado, o membro perde sua estabilidade, tornando o apoio extremamente doloroso ou até impossível. Quanto mais cedo o animal for avaliado, maiores são as chances de reposicionar a articulação por meio de técnicas menos invasivas e preservar sua função normal.
Na grande maioria dos casos, a luxação é consequência de traumas de alta energia, como atropelamentos, quedas de altura ou acidentes automobilísticos. Entretanto, também pode ocorrer após impactos menos intensos quando existem alterações prévias na articulação, como displasia coxofemoral, osteoartrite avançada ou lesões ligamentares. Além da luxação em si, esses pacientes frequentemente apresentam outras lesões ortopédicas ou neurológicas associadas, tornando indispensável uma avaliação completa.
O que causa a luxação de quadril?
A articulação coxofemoral é estabilizada por músculos, cápsula articular, ligamentos e pelo ligamento da cabeça do fêmur. Quando essas estruturas sofrem ruptura, a cabeça femoral pode deslocar-se para fora do acetábulo.
Traumas de alta energia
Atropelamentos representam a causa mais comum da luxação de quadril. Quedas, colisões e acidentes durante atividades físicas intensas também podem gerar força suficiente para romper os ligamentos estabilizadores da articulação.
Displasia coxofemoral
Em cães com displasia de quadril, a articulação já apresenta instabilidade prévia, tornando-se mais suscetível à luxação após traumatismos de menor intensidade.
Alterações degenerativas
Doenças articulares crônicas podem enfraquecer os tecidos responsáveis pela estabilização do quadril, aumentando o risco de deslocamento após movimentos bruscos.
Quais são os principais sinais clínicos?
Os sintomas costumam surgir imediatamente após o trauma e geralmente são bastante evidentes.
Incapacidade de apoiar o membro
A maioria dos cães evita completamente apoiar o membro afetado devido à intensa dor e à perda da estabilidade articular.
Dor intensa
O animal pode vocalizar durante a movimentação, resistir ao toque na região do quadril ou demonstrar grande desconforto ao tentar caminhar.
Alteração da posição do membro
Dependendo da direção da luxação, a perna pode parecer mais curta ou mais longa do que o normal, além de assumir uma posição anormal em repouso.
Redução da mobilidade
Mesmo quando tenta caminhar, o cão apresenta dificuldade importante para movimentar o quadril, mantendo o membro suspenso ou realizando movimentos bastante limitados.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico associa histórico do trauma, exame ortopédico e exames de imagem.
Exame ortopédico
Durante a consulta, o médico-veterinário avalia postura, marcha, alinhamento do membro, amplitude de movimento e estabilidade da articulação. A palpação frequentemente permite identificar perda do posicionamento normal da cabeça do fêmur.
Avaliação neurológica
Como muitos pacientes sofreram traumatismos importantes, também é necessário investigar possíveis lesões da medula espinhal ou de nervos periféricos, especialmente do nervo ciático.
Radiografias
As radiografias confirmam a luxação, identificam sua direção e permitem pesquisar fraturas da pelve, do fêmur ou outras alterações que possam modificar o planejamento terapêutico.
Exames complementares
Em pacientes politraumatizados, tomografia computadorizada pode ser indicada para avaliar fraturas complexas da pelve e auxiliar no planejamento cirúrgico.
Quais são as opções de tratamento?
O tratamento depende principalmente do tempo de evolução da lesão, da estabilidade da articulação após o reposicionamento e da presença de fraturas associadas.
Redução fechada
Quando o atendimento ocorre pouco tempo após a luxação e não existem fraturas associadas, muitas vezes é possível reposicionar a cabeça do fêmur sem cirurgia. Esse procedimento é realizado sob anestesia geral ou sedação profunda, seguido por métodos de contenção temporária para favorecer a cicatrização dos tecidos lesionados.
Quanto menor o intervalo entre a luxação e a redução, maiores costumam ser as chances de sucesso desse tratamento.
Tratamento cirúrgico
Quando a redução fechada não é possível, quando a luxação recidiva ou quando existem fraturas associadas, o tratamento cirúrgico passa a ser a melhor opção. Diversas técnicas podem ser utilizadas para restaurar a estabilidade da articulação, incluindo reconstrução ligamentar, transposição do trocânter maior, técnicas de sutura extracapsular ou outros procedimentos específicos conforme cada caso.
Em situações nas quais a articulação apresenta danos irreversíveis, procedimentos como colocefalectomia ou prótese total de quadril podem ser considerados em pacientes selecionados.
Reabilitação fisioterápica
Após a estabilização da articulação, a fisioterapia auxilia na recuperação da força muscular, da amplitude de movimento e da qualidade da marcha, reduzindo a rigidez e favorecendo o retorno gradual às atividades.
Como deve ser o manejo em casa?
Até a avaliação veterinária, o ideal é movimentar o animal o mínimo possível. O transporte deve ser realizado sobre uma superfície firme, evitando movimentos bruscos da pelve e dos membros posteriores.
Após o tratamento, seja conservador ou cirúrgico, o repouso controlado é fundamental. Corridas, saltos, escadas e brincadeiras devem ser evitados durante o período recomendado pelo médico-veterinário. O uso correto das medicações, o comparecimento às reavaliações e a realização da fisioterapia quando indicada aumentam significativamente as chances de recuperação.
Quando procurar atendimento imediatamente?
A luxação de quadril deve ser considerada uma emergência ortopédica. Dor intensa, incapacidade de apoiar o membro, deformidade evidente, trauma de alta energia, dificuldade para caminhar, sangramento ou suspeita de outras lesões exigem atendimento veterinário imediato.
Após procedimentos cirúrgicos, abertura da incisão, secreção, febre, perda progressiva da função do membro, aumento importante do inchaço ou retorno da dor também justificam reavaliação urgente.
Qual é o prognóstico?
Quando tratada rapidamente, a maioria dos cães apresenta excelente recuperação funcional. O prognóstico depende do tempo decorrido entre a luxação e o tratamento, da presença de lesões associadas, da estabilidade obtida após a redução e da adesão ao protocolo de recuperação. Luxações tratadas precocemente costumam apresentar melhores resultados do que aquelas diagnosticadas somente após vários dias, quando já existe maior contração muscular e formação de tecido cicatricial.
Conclusão
A luxação de quadril é uma lesão dolorosa que necessita de atendimento veterinário o mais rapidamente possível. O diagnóstico precoce permite aumentar as chances de reposicionar a articulação sem procedimentos complexos e reduzir o risco de complicações futuras. A avaliação ortopédica completa, associada aos exames de imagem e ao tratamento individualizado, é fundamental para restaurar a função do membro e proporcionar uma recuperação segura.
Referências
Piermattei DL, Flo GL, DeCamp CE. Brinker, Piermattei and Flo's Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. 5th ed. Elsevier. 2016.
Voss K, Montavon PM. Coxofemoral luxation in the dog and cat. In: Tobias KM, Johnston SA, editors. Veterinary Surgery: Small Animal. Elsevier. 2012.
Sobre o autor

Dr. Felipe Garofallo (Médico-veterinário (CRMV-SP 39.972)) — Especializado em ortopedia e neurologia veterinária. Atua exclusivamente no diagnóstico e tratamento de doenças musculoesqueléticas e neurológicas em cães e gatos, com foco em medicina baseada em evidências, cirurgia ortopédica e produção de conteúdo técnico para tutores e médicos-veterinários.
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