Ruptura do tendão de Aquiles em cães

O jarrete caído pode indicar uma lesão parcial ou completa do tendão de Aquiles. Entenda as causas, como é feito o diagnóstico e quais são as possibilidades de tratamento e recuperação.

Dr. Felipe Garofallo · Médico-veterinário (CRMV-SP 39.972)24 de agosto de 20265 min de leitura
Cão com jarrete caído por ruptura do tendão de Aquiles

A ruptura do tendão de Aquiles em cães é uma lesão ortopédica que compromete a sustentação do membro posterior. Um dos sinais mais marcantes é o chamado jarrete caído: o cão passa a apoiar a parte de trás da pata mais próxima do chão, assumindo uma postura plantígrada. Essa alteração precisa de avaliação veterinária, pois pode representar desde uma lesão parcial até a ruptura completa do conjunto de tendões.

O que é a ruptura do tendão de Aquiles em cães?

Nos cães, o nome tendão de Aquiles é usado de forma prática para se referir ao tendão calcâneo comum. Ele é formado pela contribuição de diferentes músculos e tendões da região posterior da perna, incluindo o gastrocnêmio e o tendão flexor digital superficial.

Esse conjunto se insere no calcâneo, osso que forma a ponta do jarrete. Sua função é transmitir a força muscular necessária para manter o tarso estendido, impulsionar o corpo durante a caminhada e ajudar o animal a ficar na ponta dos dedos.

Quando parte ou todo esse mecanismo se rompe, o cão perde a capacidade de sustentar o jarrete na posição normal. A articulação passa a flexionar excessivamente durante o apoio, aproximando-se do chão.

Por que o jarrete fica caído?

O jarrete corresponde à região do tarso, localizada entre a perna e a pata traseira. Em condições normais, o tendão calcâneo comum mantém essa articulação elevada e firme enquanto o cão apoia o membro.

Na ruptura completa, a tração que sustentava o tarso é interrompida. Por isso, o cão pode apoiar a pata com o jarrete muito baixo, como se estivesse caminhando sobre uma parte maior do membro. Esse padrão é chamado de postura plantígrada.

Nas lesões parciais, a apresentação pode variar. Alguns cães mantêm parte da capacidade de estender o tarso, mas demonstram fraqueza, claudicação e aumento de volume na região. Quando determinados componentes permanecem íntegros, também pode ocorrer flexão anormal dos dedos, deixando-os com aparência encurvada.

O jarrete caído não deve ser confundido com uma alteração exclusivamente do joelho. A ruptura do ligamento cruzado cranial, por exemplo, afeta outra articulação e exige investigação e tratamento diferentes.

Quais são as possíveis causas?

A ruptura pode acontecer de forma aguda, após um trauma, ou desenvolver-se gradualmente devido à degeneração do tecido tendíneo. Entre as situações que podem estar envolvidas estão:

  • cortes profundos na parte de trás do membro;
  • traumas durante corridas, saltos ou mudanças bruscas de direção;
  • flexão excessiva do tarso enquanto a musculatura está contraída;
  • processos degenerativos crônicos do tendão;
  • lesões parciais que evoluem ao longo do tempo;
  • traumas diretos ou acidentes.

Em quadros crônicos, o tutor pode perceber piora progressiva do apoio, espessamento próximo ao calcâneo e dificuldade para caminhar. Nem sempre existe um acidente claramente identificado.

Sinais que merecem atenção

Além do jarrete mais próximo do chão, outros sinais podem acompanhar a lesão:

  • claudicação súbita ou progressiva;
  • dificuldade para apoiar o membro posterior;
  • dor e sensibilidade local;
  • inchaço na região posterior do jarrete;
  • ferida ou corte próximo ao tendão;
  • posição anormal dos dedos;
  • redução da disposição para caminhar, correr ou subir degraus.

Se houver uma ferida aberta, incapacidade de apoiar a pata ou deformidade evidente, a avaliação deve ser realizada com rapidez. Até o atendimento, é importante restringir a movimentação e evitar manipular ou tentar reposicionar o membro.

Como o diagnóstico é feito?

O diagnóstico começa pelo histórico e pelo exame ortopédico. O veterinário observa a marcha, avalia o ângulo do tarso, palpa o trajeto do tendão e verifica se ainda existe tensão durante a movimentação da articulação.

Exames de imagem ajudam a definir a extensão da lesão e a planejar o tratamento. A ultrassonografia pode mostrar descontinuidade, espessamento, desorganização das fibras e áreas de degeneração. As radiografias são úteis para avaliar ossos e articulações, identificar alterações no calcâneo e excluir fraturas ou outras causas de apoio anormal.

Em casos selecionados, exames adicionais podem ser recomendados. A diferenciação entre ruptura parcial, completa, aguda ou crônica é importante porque interfere diretamente na escolha da técnica de tratamento.

Como tratar o tendão rompido?

Tratamento cirúrgico

As rupturas completas e muitas lesões parciais importantes costumam exigir cirurgia. O objetivo é aproximar e estabilizar as extremidades do tendão, restabelecendo sua tensão e favorecendo a cicatrização.

Em lesões recentes, pode ser possível realizar a sutura direta das estruturas rompidas. Nos casos crônicos, as pontas do tendão podem estar retraídas, espessadas ou com tecido degenerado. Nessas situações, o cirurgião pode precisar remover o tecido comprometido e utilizar técnicas de reconstrução, reforço ou avanço tendíneo.

Depois do reparo, o tarso geralmente precisa permanecer protegido para evitar tensão excessiva sobre a sutura. Essa proteção pode envolver órteses, talas, imobilizações, parafusos temporários ou fixadores externos, conforme as características da lesão e do paciente. Cada método apresenta indicações e cuidados específicos.

Tratamento conservador

O tratamento sem cirurgia pode ser considerado em algumas lesões parciais, especialmente quando há continuidade funcional suficiente do tendão. Ele pode incluir imobilização, restrição rigorosa de atividade, controle da dor e acompanhamento por exames.

Essa decisão deve ser tomada pelo ortopedista veterinário. Apenas manter o cão em repouso, sem diagnóstico e estabilização adequados, pode permitir que o tendão cicatrize alongado, mantendo o jarrete caído e prejudicando a função do membro.

Como é a recuperação?

A recuperação costuma ser gradual e exige participação ativa do tutor. O tendão precisa de tempo para cicatrizar, e a progressão das atividades deve respeitar as avaliações clínicas. O acompanhamento pode incluir:

  1. restrição de corridas, saltos e brincadeiras;
  2. passeios curtos e controlados, quando liberados;
  3. revisões periódicas da cirurgia e da imobilização;
  4. trocas de curativo e cuidados com a pele;
  5. fisioterapia veterinária em momento apropriado;
  6. retorno progressivo ao apoio e ao fortalecimento muscular.

Durante o uso de tala, órtese ou fixador, o tutor deve observar inchaço dos dedos, mau cheiro, umidade, feridas, desconforto crescente ou tentativas persistentes de remover a proteção. Esses sinais justificam contato imediato com a equipe veterinária.

O prognóstico depende da extensão da ruptura, do tempo decorrido até o tratamento, da qualidade do tecido, da presença de feridas e do cumprimento das orientações pós-operatórias. Por isso, não existe um protocolo único para todos os cães.

Quando procurar um ortopedista veterinário?

Todo cão com jarrete caído, dificuldade importante de apoio ou mudança repentina na posição da pata deve ser examinado. A avaliação precoce ajuda a identificar quais componentes foram afetados e a planejar o tratamento antes que ocorram retração e degeneração adicionais do tendão.

Se você percebeu essa alteração no seu cão, limite a atividade e procure atendimento veterinário. Somente o exame presencial e, quando necessários, os exames de imagem podem confirmar a ruptura e indicar a abordagem mais adequada.

Sobre o autor

Dr. Felipe Garofallo

Dr. Felipe Garofallo (Médico-veterinário (CRMV-SP 39.972)) — Especializado em ortopedia e neurologia veterinária. Atua exclusivamente no diagnóstico e tratamento de doenças musculoesqueléticas e neurológicas em cães e gatos, com foco em medicina baseada em evidências, cirurgia ortopédica e produção de conteúdo técnico para tutores e médicos-veterinários.

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